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Fala, pesquisador: a história esquecida do hidrogênio brasileiro

Entrevista com Ennio Peres da Silva; por Lira Luz Benites Lázaro

Quem é Ennio Peres da Silva

Ennio Peres da Silva é físico, doutor em Engenharia Mecânica pela Unicamp e um dos pioneiros da pesquisa em hidrogênio como vetor energético no Brasil. É coordenador do Laboratório de Hidrogênio da Unicamp (LH2), onde atua há décadas no desenvolvimento de pesquisas sobre produção, armazenamento e aplicações do hidrogênio, além de fontes renováveis de energia e células a combustível. Ao longo de sua trajetória, tornou-se uma das principais referências nacionais na evolução científica, tecnológica e institucional do hidrogênio no país, acompanhando de perto os diferentes ciclos de desenvolvimento dessa tecnologia.

O professor Ennio Peres da Silva, coordenador do Laboratório de Hidrogênio da Unicamp (LH2)

 

 “O bonde passou mais de uma vez.”

A frase, dita pelo professor Ennio Peres da Silva, resume quase cinquenta anos de uma trajetória pouco conhecida da ciência brasileira. Ao longo de sua carreira, o professor acompanhou o nascimento, a ascensão e o declínio de diferentes ciclos do hidrogênio no Brasil. Sua narrativa revela que, muito antes de o hidrogênio verde ocupar as manchetes e as agendas governamentais, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) já desenvolviam tecnologias, formavam recursos humanos e imaginavam um futuro energético que apenas décadas depois voltaria ao centro do debate internacional.

Ao refletir sobre essa trajetória, o professor Ennio propõe compreendê-la a partir de três grandes ondas do hidrogênio no Brasil. A primeira nasceu em resposta à crise do petróleo dos anos 1970. A segunda ganhou força a partir de meados da década de 1990, impulsionada pelo avanço das células a combustível e pelo entusiasmo em torno da chamada economia do hidrogênio. A terceira corresponde ao atual ciclo do hidrogênio verde, marcado pela agenda global da descarbonização e pela busca por novas estratégias industriais. Entre uma onda e outra, porém, não se encontram apenas avanços científicos, mas também mudanças nas prioridades nacionais, interrupções de políticas públicas e oportunidades que, segundo o professor, o país deixou escapar.

Reconstruir essa trajetória é também revisitar um capítulo pouco conhecido da ciência, da inovação e da política energética brasileira — um capítulo que ajuda a compreender não apenas o passado do hidrogênio, mas também os desafios que definirão seu futuro.

Primeira onda: a crise do petróleo e as origens do hidrogênio brasileiro

A história do hidrogênio no Brasil não começou com a preocupação em reduzir emissões de carbono, mas com uma crise de abastecimento. Em 1973, a elevação abrupta dos preços internacionais do petróleo expôs a vulnerabilidade de países fortemente dependentes das importações e obrigou o Brasil a repensar sua estratégia energética.

O impacto foi particularmente profundo no Brasil. Naquele momento, segundo recorda o professor Ennio, o país importava cerca de 80% do petróleo que consumia e precisava pagar, em dólares, por uma fonte de energia cujo preço havia aumentado dramaticamente. “A gente pegou o começo, a primeira onda que surgiu com a crise do petróleo dos anos 1970”, afirma. Mais do que uma questão econômica, a crise colocava em evidência a necessidade de ampliar a segurança energética e reduzir a exposição do país às instabilidades externas.

A resposta brasileira não se concentrou em uma única tecnologia. A crise acelerou uma estratégia mais ampla de diversificação e fortalecimento da autonomia energética, que combinou a expansão da geração hidrelétrica, a criação do Programa Nacional do Álcool — o Proálcool, em 1975 —, a intensificação da exploração nacional de petróleo e o investimento em pesquisas sobre fontes e tecnologias alternativas. Grandes empreendimentos hidrelétricos, como Itaipu, integravam esse esforço de ampliação da infraestrutura elétrica e reforçavam uma característica que se tornaria decisiva para a pesquisa em hidrogênio: a disponibilidade de eletricidade de origem predominantemente renovável.

A crise do petróleo acelerou uma estratégia mais ampla de diversificação e fortalecimento da autonomia energética, que combinou a expansão da geração hidrelétrica, a criação do Programa Nacional do Álcool, a intensificação da exploração nacional do petróleo e o investimento em pesquisas sobre fontes e tecnologias alternativas

 

A recessão econômica que acompanhou a crise também produziu uma situação particular. Enquanto o país ampliava sua capacidade hidrelétrica, a desaceleração da atividade econômica reduzia a demanda e gerava excedentes de eletricidade a custos relativamente baixos. Essa energia chegou a ser utilizada em processos industriais, inclusive na produção de vapor por meio de caldeiras elétricas. Foi nesse contexto que surgiu a possibilidade de empregar a eletricidade disponível para produzir hidrogênio por eletrólise da água.

Na época, o hidrogênio utilizado pela indústria brasileira era produzido principalmente a partir da nafta e de outros derivados de petróleo. Ele era necessário em processos de refino, como o hidrocraqueamento e a dessulfurização, e também na fabricação de amônia e fertilizantes. Produzi-lo por eletrólise representava, portanto, uma oportunidade de substituir insumos importados e reduzir o consumo de derivados de petróleo em atividades consideradas estratégicas.

Foi nesse ambiente que surgiu o Laboratório de Hidrogênio da Unicamp. Segundo o professor, sua criação esteve diretamente associada à possibilidade de aproveitar a eletricidade hidrelétrica para produzir hidrogênio eletrolítico.

“O Laboratório de Hidrogênio da Unicamp foi criado para trabalhar nessa vertente do hidrogênio eletrolítico, não petroquímico, produzido por eletrólise, que é o que hoje chamamos de hidrogênio verde.”

Como a rede elétrica brasileira era essencialmente hidrelétrica, o hidrogênio produzido por essa rota apresentava baixa intensidade de carbono. As fontes solar e eólica ainda não possuíam participação relevante no sistema elétrico, mas o princípio que atualmente sustenta o conceito de hidrogênio verde já estava presente: utilizar eletricidade renovável para separar as moléculas da água e produzir hidrogênio sem recorrer diretamente aos combustíveis fósseis.

A experiência revela que as pesquisas brasileiras em hidrogênio não nasceram isoladas nem foram inicialmente impulsionadas pela agenda climática. Elas fizeram parte de uma resposta mais ampla a uma crise de segurança energética. O desafio naquele momento era substituir diferentes derivados de petróleo: o etanol apresentava-se como alternativa à gasolina; outras pesquisas buscavam substitutos para o diesel; e o hidrogênio eletrolítico poderia reduzir o uso da nafta na indústria, contribuir para a produção de fertilizantes e, futuramente, atender a aplicações no transporte.

A primeira onda, contudo, perdeu força quando o contexto internacional voltou a mudar. A partir de meados dos anos 1980, a queda dos preços do petróleo reduziu a urgência econômica que havia sustentado os investimentos em fontes alternativas. Tecnologias como o hidrogênio, a energia solar, a energia eólica e os combustíveis alternativos perderam espaço nas prioridades públicas. Até mesmo o Proálcool, posteriormente reconhecido como uma das experiências mais importantes da política energética brasileira, atravessou um período de forte questionamento.

Para o professor Ennio, esse momento já revelava uma característica que apareceria nas décadas seguintes: a tendência de abandonar estratégias de longo prazo quando as condições imediatas do mercado se tornaram mais favoráveis. A redução do preço do petróleo enfraqueceu o estímulo econômico, mas não eliminou o valor estratégico das tecnologias que estavam sendo desenvolvidas.

O conhecimento acumulado durante a primeira onda não desapareceu. Permaneceu nos laboratórios, nas pesquisas, nos equipamentos construídos e, sobretudo, na formação de uma comunidade científica dedicada ao tema. Enquanto o interesse político e econômico diminuía, pesquisadores da Unicamp e de outras universidades brasileiras mantiveram vivas competências que seriam retomadas quando uma nova onda internacional recolocasse o hidrogênio no centro das expectativas energéticas.

A primeira onda deixava, assim, uma lição que atravessaria toda a trajetória do hidrogênio brasileiro: crises podem abrir janelas para a inovação, mas transformar experimentação científica em capacidade tecnológica duradoura exige continuidade muito além do momento de emergência.

Segunda onda: quando o hidrogênio parecia ser o combustível do século 21

Se a primeira onda foi impulsionada pela busca por segurança energética, a segunda nasceu de uma nova pergunta: como seria o sistema energético do futuro?

No início da década de 1990, a preocupação mundial deixava de ser apenas a dependência do petróleo. O avanço das discussões ambientais, a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento — a Rio-92 — e o rápido desenvolvimento das células a combustível alimentavam uma nova visão: o hidrogênio poderia deixar de ser apenas uma matéria-prima industrial e tornar-se o combustível do século 21. Foi nesse ambiente que a pesquisa em hidrogênio ganhou um novo impulso na Unicamp. Para o professor Ennio Peres da Silva, a Rio-92 representou um momento de inflexão.

“Voltamos da Rio-92 pensando: como será o carro do futuro?”

A pergunta mobilizou pesquisadores de diferentes áreas da universidade e deu origem a um dos projetos mais emblemáticos da história do Laboratório de Hidrogênio: o desenvolvimento do veículo Vega, concebido para operar com célula a combustível, motor elétrico, baterias e hidrogênio armazenado em cilindros de alta pressão.

“Voltamos da Rio-92 pensando: como será o carro do futuro?” A pergunta mobilizou pesquisadores de diferentes áreas da universidade e deu origem a um dos projetos mais emblemáticos da história do Laboratório de Hidrogênio

 

O projeto não tinha como objetivo apenas construir um automóvel experimental. A proposta era muito mais ambiciosa: desenvolver, com antecedência, competências científicas e tecnológicas em uma área que ainda parecia distante da realidade comercial, mas que poderia transformar a mobilidade nas décadas seguintes. Para o professor Ennio, a inovação exige antecipação. 

“Nessa corrida, nós somos a tartaruga. Temos que sair antes. Não adianta esperar que a tecnologia amadureça para depois começar a pesquisar. Quando ela chegar ao mercado, quem começou antes já estará muito à frente.”

A metáfora da tartaruga traduz uma das principais lições da entrevista: inovação não se constrói respondendo ao presente, mas preparando-se para o futuro. Em tecnologias emergentes, a vantagem competitiva não nasce quando o mercado está consolidado, mas durante o longo período de pesquisa, experimentação e formação de capacidades científicas que antecede sua maturidade. Foi essa visão que orientou a equipe da Unicamp ao apostar no hidrogênio quando ele ainda parecia uma tecnologia distante.

Essa visão orientou o grupo de pesquisadores da Unicamp. Em vez de esperar que a indústria definisse os caminhos tecnológicos, a equipe decidiu construir conhecimento, formar recursos humanos e desenvolver protótipos capazes de antecipar tendências que apenas anos mais tarde se consolidariam no cenário internacional.

A segunda onda também foi marcada pela criação do Centro Nacional de Referência em Energia do Hidrogênio (CENEH), reunindo universidades, centros de pesquisa e empresas em torno do desenvolvimento de tecnologias relacionadas ao hidrogênio. O período foi caracterizado por intenso investimento em células a combustível, armazenamento, produção de hidrogênio e aplicações veiculares, consolidando a Unicamp como uma das principais referências brasileiras no tema.

Entretanto, como observa o professor Ennio, o entusiasmo tecnológico nem sempre foi acompanhado pela criação de mercados capazes de sustentar essas inovações.

“O difícil nunca foi produzir hidrogênio. O difícil era saber onde utilizá-lo e criar demanda para essa tecnologia.”

Ao longo da entrevista, o professor chama atenção para um aspecto frequentemente esquecido na história da inovação: tecnologias não se consolidam apenas porque funcionam. Elas dependem de políticas públicas consistentes, investimentos de longo prazo, coordenação entre universidades, empresas e governos e, sobretudo, da existência de aplicações capazes de justificar sua adoção em escala.

Ainda assim, a segunda onda deixou um legado profundo. Mais do que protótipos ou equipamentos, ela consolidou competências científicas, formou pesquisadores, fortaleceu redes de cooperação e demonstrou que a universidade pública brasileira era capaz de desenvolver tecnologias na fronteira do conhecimento internacional.

O futuro imaginado nos anos 1990 talvez tenha demorado mais do que muitos esperavam para chegar. Mas, quando o hidrogênio voltou ao centro das estratégias globais de descarbonização décadas depois, boa parte do conhecimento necessário para essa nova etapa já havia sido construída nos laboratórios da Unicamp.

Terceira onda: o hidrogênio volta ao debate — e os velhos desafios também

Cinco décadas depois de a crise do petróleo impulsionar as primeiras iniciativas de pesquisa em hidrogênio no Brasil, o mundo voltou a discutir essa tecnologia. Desta vez, porém, o contexto é diferente. O hidrogênio deixa de ser visto apenas como um possível substituto dos combustíveis fósseis no transporte e passa a integrar estratégias mais amplas de descarbonização da economia. Seu maior potencial concentra-se em setores de difícil abatimento de emissões de gases de efeito estufa, como a produção de fertilizantes, a siderurgia, a indústria química, a aviação e o transporte marítimo.

Nesse novo cenário, o Brasil reúne condições relevantes para participar da economia do hidrogênio de baixo carbono. A combinação entre uma matriz elétrica predominantemente renovável, a expansão das fontes eólica e solar e a disponibilidade de recursos naturais coloca o país entre aqueles com maior potencial para produzir hidrogênio por eletrólise em larga escala.

Mas o professor Ennio observa esse momento com a serenidade de quem já testemunhou outras ondas de entusiasmo em torno da mesma tecnologia.

O Brasil reúne condições relevantes para participar da economia do hidrogênio de baixo carbono

 

“Já passamos daquele pico da euforia. Agora estamos na descendência.”

Longe de representar pessimismo, a observação reflete a experiência acumulada de algumas décadas dedicadas ao hidrogênio. Para o professor, toda tecnologia emergente atravessa um período inicial de grandes expectativas. O verdadeiro teste começa quando os projetos precisam demonstrar viabilidade econômica, encontrar aplicações concretas e competir por espaço nas estratégias industriais.

Ao longo da entrevista, ele lembra que procurou alertar para esse excesso de expectativas desde o início da terceira onda.

“Eu não posso criar ilusões. Tenho que falar aquilo que a minha experiência me diz que é o certo.”

Na avaliação do pesquisador, o desafio contemporâneo já não é provar que o hidrogênio pode ser produzido. Esse conhecimento foi desenvolvido ao longo das décadas anteriores. A questão central passou a ser outra: construir mercados capazes de absorver essa produção.

Essa mudança de perspectiva aparece de forma particularmente clara quando o professor Ennio inverte a lógica que costuma orientar o debate público.

“A principal coisa não é fazer hidrogênio. Fazer hidrogênio é o mais fácil.”

A frase, inicialmente surpreendente, sintetiza uma visão construída ao longo de décadas de pesquisa aplicada. Para o professor, produzir hidrogênio representa apenas uma parte da equação. Antes disso, é necessário saber quem irá consumi-lo, em quais processos industriais ele agregará valor e quais cadeias produtivas justificarão novos investimentos.

É por isso que sua principal recomendação para as políticas públicas também rompe com a lógica predominante.

“O governo não devia pôr dinheiro em fazer hidrogênio. Ele tem que criar demanda.”

Na visão de Ennio, quando existe uma demanda concreta — para produzir amônia, abastecer uma indústria ou fabricar combustíveis sustentáveis — a produção de hidrogênio tende a surgir naturalmente. O desafio, portanto, desloca-se dos laboratórios para a política industrial: criar mercados, desenvolver infraestrutura, estabelecer marcos regulatórios e incentivar aplicações capazes de sustentar investimentos de longo prazo.

Essa mudança ajuda a compreender por que a terceira onda difere das anteriores. Se, na década de 1970, o hidrogênio surgiu como resposta à crise do petróleo e, nos anos 1990, foi impulsionado pela expectativa da economia do hidrogênio e das células a combustível, hoje seu futuro depende menos da tecnologia em si e mais da capacidade de integrá-la a estratégias industriais consistentes.

Ao revisitar sua trajetória, Ennio mostra que a história do hidrogênio nunca foi determinada apenas pelos avanços científicos. Cada uma das três ondas esteve profundamente ligada às prioridades econômicas e energéticas de seu tempo

 

Ao revisitar essa trajetória, o professor Ennio mostra que a história do hidrogênio nunca foi determinada apenas pelos avanços científicos. Cada uma das três ondas esteve profundamente ligada às prioridades econômicas e energéticas de seu tempo. Compreender essas mudanças de contexto é essencial para entender não apenas o passado do hidrogênio, mas também os desafios que ainda moldam seu futuro.

Pré-sal: ponto de inflexão ou oportunidade perdida?

Ao reconstruir as três ondas do hidrogênio no Brasil, o professor Ennio identifica um momento decisivo para compreender por que a trajetória iniciada nas décadas de 1970 e 1990 perdeu impulso. Para ele, a descoberta das gigantescas reservas do pré-sal, em meados dos anos 2000, alterou profundamente as prioridades da política energética brasileira.

“Agora a gente deu azar, porque achamos o petróleo.”

A frase, provocativa, não representa uma crítica à importância econômica do pré-sal nem ao papel estratégico do petróleo para o país. Ela expressa a percepção de quem acompanhou, dentro da universidade, a mudança de prioridades que se seguiu à descoberta das novas reservas. Segundo o professor, o entusiasmo em torno do petróleo reduziu o senso de urgência que havia impulsionado a busca por alternativas energéticas nas décadas anteriores.

“O pré-sal modificou a estratégia no âmbito do governo federal.”

Na avaliação do professor, essa mudança não ocorreu porque o hidrogênio deixou de ser tecnicamente promissor, mas porque as prioridades nacionais passaram a concentrar-se em outra agenda energética. Recursos, atenção política e expectativas de desenvolvimento voltaram-se para a exploração das novas reservas petrolíferas, enquanto outras tecnologias perderam espaço na agenda pública.

Ao recordar esse período, Ennio observa que o ritmo de desenvolvimento da política para o hidrogênio tornou-se cada vez mais lento.

“Você sente da parte dos governos um certo não entusiasmo pelo hidrogênio. Está em uma velocidade mínima.”

Sua leitura convida a uma reflexão que ultrapassa o próprio hidrogênio. Tecnologias emergentes não evoluem isoladamente; elas competem por recursos, atenção política e prioridade institucional. Em diferentes momentos, as escolhas de um país sobre onde investir moldam quais trajetórias tecnológicas serão aceleradas e quais permanecerão em segundo plano.

Ao mesmo tempo, a própria história do pré-sal mostra que essa relação está longe de ser simples. O petróleo fortaleceu capacidades científicas, industriais e tecnológicas em diversos segmentos da economia brasileira, ao mesmo tempo em que ampliou investimentos em pesquisa e desenvolvimento. A questão colocada pela entrevista, portanto, não é escolher entre as fontes energéticas, mas compreender como grandes decisões de política energética podem redefinir prioridades e alterar o ritmo de desenvolvimento de tecnologias emergentes.

Ao revisitar esse período, o professor Ennio evita interpretações simplistas. Seu argumento não é que o pré-sal tornou inviável o hidrogênio, mas que a mudança de contexto modificou profundamente o ambiente no qual essa tecnologia vinha sendo desenvolvida.

Muito além do hidrogênio: a inovação também precisa de continuidade

Ao longo da entrevista, o professor Ennio reconstrói cinco décadas de pesquisa sobre hidrogênio na Unicamp. Mas sua narrativa revela algo que vai muito além da história de uma única tecnologia. Ela convida a refletir sobre um dos maiores desafios do desenvolvimento brasileiro: por que um país capaz de produzir conhecimento científico de excelência, formar pesquisadores e antecipar tendências tecnológicas encontra tanta dificuldade para transformar esse pioneirismo em uma trajetória contínua de inovação?

A experiência do hidrogênio mostra que a inovação não ocorre de forma linear. Descobertas científicas, por si só, não garantem a consolidação de novas tecnologias. Entre o laboratório e o mercado existe um longo percurso, marcado por incertezas, aprendizagem, investimentos sucessivos e decisões políticas. É nesse percurso que muitas trajetórias tecnológicas são interrompidas.

Ao revisitar as três ondas do hidrogênio, o professor Ennio identifica um padrão recorrente. Em diferentes momentos, o Brasil foi capaz de desenvolver competências científicas, criar laboratórios, formar recursos humanos e antecipar soluções que somente anos mais tarde ganhariam importância internacional. O maior desafio nunca esteve apenas na pesquisa. Esteve na capacidade de preservar essas competências quando o contexto político e econômico mudou.

“Nós temos um problema sério no Brasil, que é a descontinuidade dos projetos de pesquisa. Você põe dinheiro e depois não tem sequência.”

A observação ultrapassa o campo do hidrogênio. Ela sintetiza um desafio estrutural da política científica brasileira. Inovação exige tempo. Exige instituições capazes de acumular conhecimento, formar sucessivas gerações de pesquisadores e manter estratégias que sobrevivam às mudanças de governo, aos ciclos econômicos e às oscilações das prioridades nacionais.

Essa reflexão também amplia a forma como compreendemos a própria transição energética. Frequentemente apresentada como uma simples substituição de tecnologias — do petróleo pelas renováveis, dos motores a combustão pelos elétricos ou dos combustíveis fósseis pelo hidrogênio —, a transição revela-se, na prática, um processo muito mais complexo. Ela envolve escolhas sobre quais tecnologias priorizar, quais cadeias produtivas desenvolver, onde investir recursos públicos e como articular universidades, empresas e Estado em torno de uma estratégia comum.

A trajetória do hidrogênio mostra que tecnologias não competem apenas por eficiência técnica. Elas competem por atenção política, financiamento, infraestrutura, capacidade industrial e continuidade institucional. Em outras palavras, a inovação não depende apenas da qualidade da ciência produzida, mas da capacidade de transformar conhecimento em políticas públicas, mercados e oportunidades de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, a história reconstruída pelo professor Ennio também relativiza uma ideia frequentemente associada à inovação: a de que chegar primeiro é suficiente. O caso do hidrogênio demonstra que o pioneirismo representa apenas o início da trajetória. Outros países conseguiram manter investimentos, fortalecer empresas, consolidar cadeias produtivas e transformar pesquisa em capacidade industrial. O Brasil, por sua vez, destacou-se repetidamente pela qualidade de sua produção científica, mas encontrou maiores dificuldades para dar continuidade a esse processo.

Além de recuperar a memória do hidrogênio na Unicamp, ela mostra que a inovação é um processo histórico. Não se constrói apenas com boas ideias, laboratórios ou recursos naturais abundantes. Constrói-se com instituições capazes de aprender ao longo do tempo, preservar capacidades e sustentar projetos estratégicos mesmo quando as prioridades políticas e econômicas mudam.

No fim, a história do hidrogênio revela uma questão que permanece atual para toda a transição energética brasileira: como transformar pioneirismo científico em capacidade industrial, desenvolvimento tecnológico e valor agregado para a sociedade? A resposta talvez não esteja em uma tecnologia específica, mas na capacidade de construir políticas de longo prazo que permitam ao conhecimento acumulado atravessar gerações e se converter em inovação.

Ennio Peres da Silva: “Como transformar pioneirismo científico em capacidade industrial, desenvolvimento tecnológico e valor agregado para a sociedade?”

 

“O bonde passou mais de uma vez.”

A frase que abre esta entrevista também resume sua principal lição. Mais do que uma lembrança sobre oportunidades perdidas, ela convida a refletir sobre uma questão que ultrapassa o hidrogênio: como um país pode estar à frente do seu tempo em ciência e tecnologia e, ainda assim, não transformar esse pioneirismo em uma trajetória duradoura de inovação?

Ao longo de cinco décadas, a história reconstruída pelo professor Ennio mostra que transições energéticas não são determinadas apenas pelo surgimento de novas tecnologias. Elas são moldadas por escolhas políticas, estratégias industriais, instituições capazes de preservar conhecimento e pela continuidade dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação.