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Fala, Pesquisador: o elo perdido da inovação brasileira

Entrevista com Hugo Figueroa; por Lira Luz Benites Larazo – pesquisadora CPTEn

O paradoxo brasileiro

O Brasil está novamente diante de uma encruzilhada histórica. Enquanto o mundo acelera investimentos em inteligência artificial, hidrogênio verde, baterias, minerais críticos e novas tecnologias energéticas, o país volta a ser apontado como uma das nações com maior potencial para liderar a economia de baixo carbono. Poucos países reúnem simultaneamente uma matriz elétrica predominantemente renovável, abundância de recursos naturais estratégicos, capacidade científica consolidada e um mercado interno de grande escala.

Ao mesmo tempo, uma questão acompanha a trajetória brasileira há décadas.

Como explicar que um país com universidades de excelência, abundância de recursos naturais e crescente protagonismo na transição energética ainda enfrenta dificuldades para ocupar uma posição de liderança tecnológica global?

Poucos países reúnem simultaneamente uma matriz elétrica predominantemente renovável, abundância de recursos naturais estratégicos, capacidade científica consolidada e um mercado interno de grande escala

 

A pergunta torna-se particularmente relevante em um momento em que a inovação voltou ao centro das discussões sobre o futuro do país. A reindustrialização, a transição energética, a soberania tecnológica e a inserção do Brasil nas novas cadeias globais de valor tornaram-se temas centrais das estratégias nacionais de desenvolvimento.

Para o professor Hugo Enrique Hernández Figueroa, diretor da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (Feec) da Unicamp, coordenador de parcerias e pesquisador do CPTEn, compreender esse desafio exige reconhecer um paradoxo que atravessa a história recente do país. “O Brasil aprendeu a produzir conhecimento, mas ainda não aprendeu a transformar sistematicamente conhecimento em riqueza, inovação e desenvolvimento.” 

A frase sintetiza um dos dilemas mais persistentes da economia brasileira.

O problema brasileiro não é a ciência

Frequentemente, o debate público sobre inovação parte da ideia de que o Brasil investe pouco em ciência, ou que ainda não construiu uma infraestrutura relevante de pesquisa. A realidade é mais complexa.

A trajetória brasileira em ciência, tecnologia e inovação possui raízes profundas. Ao longo da segunda metade do século XX, o país construiu universidades, institutos de pesquisa e agências de fomento que formaram milhares de mestres e doutores, consolidaram programas de pós-graduação e ampliaram a produção científica em áreas estratégicas para o desenvolvimento nacional. Figueroa costuma lembrar que esse processo possui um marco fundador muito claro: “A ciência, tecnologia e inovação no Brasil têm data de nascimento: 1951.”

Na avaliação do Professor, a criação do CNPq e da CAPES marcou o início de um esforço contínuo de construção das capacidades científicas nacionais, um processo que, apesar de avanços e retrocessos, permitiu ao país consolidar uma base de pesquisa reconhecida internacionalmente.

Hugo Figueroa: “O Brasil aprendeu a produzir conhecimento, mas ainda não aprendeu a transformar sistematicamente conhecimento em riqueza, inovação e desenvolvimento.” (Pedro Amatuzzi/Inova Unicamp)

 

O resultado desse esforço é visível. O Brasil construiu competências reconhecidas em agricultura tropical, bioenergia, exploração offshore, saúde pública, aeronáutica, mudanças climáticas e energias renováveis. Instituições como Embrapa, INPE, Fiocruz, Petrobras, USP e Unicamp tornaram-se referências em seus respectivos campos.

Em outras palavras, o problema brasileiro não pode ser explicado pela ausência de conhecimento científico. O país já demonstrou ser capaz de produzir ciência. O desafio está em outro lugar.

O elo perdido da inovação

Para Figueroa, a principal fragilidade do sistema brasileiro de inovação encontra-se justamente na conexão entre conhecimento e desenvolvimento. “Temos a formação de recursos humanos bastante consolidada. Temos universidades de excelência, pesquisadores qualificados e produção científica relevante. Mas esse conhecimento deveria ser transferido para a sociedade e gerar riqueza. É justamente essa parte do ciclo que continua deficiente.”

A observação aponta para aquilo que poderíamos chamar de ciclo incompleto da inovação. Nas economias mais inovadoras do mundo, a geração de conhecimento não representa o ponto final do processo. Ela é apenas o início de uma cadeia que conecta pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, empreendedorismo, investimentos, indústria e mercados.

Nas economias mais inovadoras do mundo, a geração de conhecimento não representa o ponto final do processo. Ela é apenas o início de uma cadeia que conecta pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, empreendedorismo, investimentos, indústria e mercados

 

Quando esse ciclo funciona, a ciência gera inovação. A inovação gera empresas competitivas. As empresas geram empregos, produtividade e crescimento econômico. Parte dessa riqueza retorna ao sistema na forma de novos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. O Brasil avançou significativamente nas etapas iniciais desse processo. Mas continua encontrando dificuldades para fechar o ciclo.

O resultado é um país que forma pesquisadores de excelência, publica artigos científicos de relevância internacional e desenvolve tecnologias promissoras, mas frequentemente não consegue converter essas capacidades em liderança tecnológica e competitividade econômica.

Uma comparação que incomoda

Talvez uma das perguntas mais desconfortáveis para o debate sobre inovação no Brasil seja também uma das mais reveladoras. Na década de 1970, a economia brasileira possuía indicadores superiores aos da China em diversos aspectos. Enquanto o Brasil era frequentemente apontado como uma potência emergente, a China ainda era predominantemente rural, com baixos níveis de renda e reduzida participação nas cadeias tecnológicas globais.

Poucas décadas depois, o cenário mudou radicalmente. Hoje, a China lidera setores estratégicos como energia solar, baterias, veículos elétricos, manufatura avançada e inteligência artificial. Tornou-se protagonista da transição energética global e concentra uma parcela significativa da produção mundial de tecnologias de baixo carbono.

A comparação não deve ser interpretada como um convite para reproduzir modelos estrangeiros. Os contextos históricos, políticos e institucionais são profundamente distintos. Mas ela levanta uma questão inevitável: Por que alguns países conseguiram transformar conhecimento científico em desenvolvimento econômico e liderança tecnológica, enquanto outros permanecem enfrentando dificuldades para conectar ciência, inovação e mercado?

Hoje, a China lidera setores estratégicos como energia solar, baterias, veículos elétricos, manufatura avançada e inteligência artificial. Tornou-se protagonista da transição energética global e concentra uma parcela significativa da produção mundial de tecnologias de baixo carbono

 

Segundo Figueroa, parte da resposta está na capacidade de construir estratégias de longo prazo. “Falta um plano estratégico de Estado para ciência, tecnologia e inovação. As coisas acontecem, mas muitas vezes de forma imediatista.” Mais do que recursos financeiros, o professor chama atenção para a necessidade de criar mecanismos capazes de conectar universidades, empresas, investidores e mercados. “Precisamos criar pontes. Fazer a conectividade entre universidades, empresas, investidores e mercados.”

O vale da morte da inovação

Nem toda tecnologia desenvolvida em um laboratório chega à sociedade. Muitas desaparecem antes mesmo de alcançar o mercado. Para Figueroa, esse fenômeno ajuda a explicar um dos principais desafios da inovação brasileira. Entre a descoberta científica e a comercialização existe uma etapa crítica, conhecida na literatura como o Vale da Morte da Inovação, onde inúmeras iniciativas promissoras ficam pelo caminho.

Segundo o pesquisador, um dos principais gargalos está no financiamento das etapas mais arriscadas do desenvolvimento tecnológico. “Em muitos países, essa fase é sustentada por mecanismos de financiamento voltados para tecnologias de base científica, as chamadas deep techs. São investimentos que aceitam horizontes mais longos e riscos mais elevados em troca da possibilidade de criar mercados inteiramente novos.”

Hugo Figueroa: “Falta um plano estratégico de Estado para ciência, tecnologia e inovação. As coisas acontecem, mas muitas vezes de forma imediatista. Precisamos criar pontes. Fazer a conectividade entre universidades, empresas, investidores e mercados.” (Pedro Amatuzzi/Inova Unicamp)

Diferentemente das startups digitais tradicionais, empresas intensivas em ciência frequentemente demandam anos de pesquisa, elevados investimentos iniciais e longos ciclos de maturação antes de alcançarem o mercado. Tecnologias relacionadas à fotônica, inteligência artificial, novos materiais, biotecnologia, sistemas energéticos avançados e mobilidade de baixo carbono são exemplos típicos dessa categoria.

Na avaliação de Figueroa, o Brasil avançou significativamente no financiamento da pesquisa científica e também desenvolveu instrumentos de apoio à inovação empresarial. No entanto, ainda persistem lacunas importantes justamente no momento em que uma tecnologia já demonstrou potencial científico, mas ainda não alcançou maturidade suficiente para atrair investidores tradicionais ou competir em larga escala.

“Fortalecer instrumentos de financiamento para deep techs pode ser uma das chaves para reduzir a distância entre conhecimento científico e desenvolvimento econômico. Muitas das tecnologias que irão moldar a economia verde e a transição energética exigem ciclos de maturação incompatíveis com a lógica de retorno de curto prazo predominante em grande parte dos mercados financeiros.”

Figueroa cita frequentemente a WEG e a Embraer como exemplos de que o Brasil possui capacidade para competir globalmente quando consegue conectar ciência, engenharia, indústria e mercado. “A história brasileira mostra que esse desafio não é impossível. Mas esses casos também levantam uma questão importante: por que exemplos como esses ainda são relativamente raros?”

Para ele, essas empresas demonstram que o país é capaz de desenvolver tecnologias complexas, competir internacionalmente e gerar valor agregado a partir do conhecimento. O desafio está em transformar experiências bem-sucedidas em uma característica estrutural da economia brasileira.

A reflexão não é apenas teórica. Ao participar do desenvolvimento de tecnologias avançadas de radar originalmente concebidas no ambiente universitário, Figueroa vivenciou diretamente os desafios existentes entre a geração de conhecimento e sua inserção no mercado. “Muitas vezes, o verdadeiro obstáculo surge depois que a tecnologia funciona.”

Encontrar mercados, atrair investimentos, construir modelos de negócio e transformar conhecimento em oportunidades econômicas continua sendo um dos maiores desafios para empresas de base tecnológica no país.

Empresas como a Embraer são exemplos de que o Brasil possui capacidade para competir globalmente quando consegue conectar ciência, engenharia, indústria e mercado

 

Essa experiência reforçou uma conclusão que considera fundamental: produzir conhecimento é condição necessária, mas não suficiente para inovar. A inovação exige também instituições, investidores, empresas e políticas públicas capazes de transformar invenções em produtos, negócios e desenvolvimento econômico.

Outro aprendizado decorrente dessa trajetória diz respeito à escala dos mercados. Para Figueroa, tecnologias de fronteira precisam nascer conectadas a redes globais de inovação. “Para tecnologias de fronteira, pensar global não é uma estratégia de crescimento; é uma condição de sobrevivência. Em áreas como fotônica, radares avançados, inteligência artificial, biotecnologia e novos materiais, a escala necessária para sustentar investimentos em pesquisa e desenvolvimento raramente pode ser encontrada em um único país.”

Por isso, as pontes que conectam universidades, empresas, investidores e mercados também precisam ser globais. Talvez essa seja uma das diferenças mais importantes entre os países que conseguem transformar conhecimento em desenvolvimento e aqueles que permanecem presos ao desafio de converter a excelência científica em liderança tecnológica.

A transição energética muda as regras do jogo?

É nesse contexto que a transição energética adquire uma importância estratégica. Muitas vezes apresentada apenas como uma agenda ambiental, ela representa, na realidade, uma profunda reorganização da economia mundial. A disputa global já não se limita ao acesso a recursos energéticos. Ela envolve controle tecnológico, capacidade industrial, cadeias produtivas e domínio de setores emergentes. Baterias, hidrogênio de baixa emissão, inteligência artificial, armazenamento de energia, minerais críticos e redes inteligentes tornaram-se ativos estratégicos para a competitividade das nações.

Pela primeira vez em décadas, o Brasil reúne simultaneamente recursos naturais, capacidade científica e condições geopolíticas favoráveis para participar dessa transformação. A questão central não é se o país possui potencial. A questão é se conseguirá transformar esse potencial em liderança tecnológica.

O risco de repetir a história

Mas existe um risco. Ao longo de sua história, a América Latina ocupou frequentemente a posição de fornecedora de matérias-primas para os ciclos de desenvolvimento de outras regiões do mundo. O desafio da transição energética é evitar que esse padrão seja reproduzido.

O Brasil possui reservas importantes de minerais críticos, potencial para produção de hidrogênio de baixa emissão e vantagens competitivas em bioenergia. Entretanto, isso não garante automaticamente desenvolvimento.

Pela primeira vez em décadas, o Brasil reúne simultaneamente recursos naturais, capacidade científica e condições geopolíticas favoráveis para participar dessa transformação

 

Existe a possibilidade de o país continuar exportando recursos enquanto importa tecnologias. Em vez de exportar petróleo e importar equipamentos, poderíamos exportar lítio e importar baterias. Em vez de exportar biomassa e importar inovação, poderíamos exportar hidrogênio verde e importar tecnologia. A economia verde pode representar uma transformação histórica. Mas também pode reproduzir antigas formas de dependência sob novas roupagens.

O desafio também é cultural

Ao longo da entrevista, Figueroa chama atenção para um aspecto menos visível do problema brasileiro: a relação das próprias empresas com a inovação nacional. Segundo ele, existe frequentemente uma preferência por soluções importadas, mesmo quando tecnologias competitivas estão sendo desenvolvidas em universidades, centros de pesquisa e startups brasileiras.

Essa dinâmica revela um desafio que vai além do financiamento ou das políticas públicas. Trata-se de uma questão de confiança, credibilidade e da construção de uma cultura de inovação. Em muitos setores, ainda persiste a percepção de que a tecnologia estrangeira é, por definição, mais avançada ou mais confiável do que a tecnologia desenvolvida no país. O resultado é um círculo perverso.

Empresas compram soluções externas, reduzindo oportunidades para que tecnologias nacionais sejam testadas, aperfeiçoadas e escaladas. Sem mercado, muitas inovações brasileiras não conseguem amadurecer. Sem casos de sucesso, a percepção de risco permanece elevada. Nas palavras de Figueroa, “o Brasil precisa construir não apenas capacidade tecnológica, mas também reputação tecnológica”.

Em outras palavras, o país precisa mostrar para si mesmo — e para o mundo — que também é capaz de produzir tecnologia de ponta. Isso não significa fechar-se ao conhecimento internacional. Pelo contrário. Significa reconhecer que a inserção competitiva nas cadeias globais depende não apenas da capacidade de absorver tecnologias desenvolvidas em outros lugares, mas também da capacidade de criar, adaptar e exportar soluções próprias.

Hugo Figueroa: “Seremos protagonistas da economia verde do século XXI ou continuaremos exportando recursos enquanto importamos tecnologia?” (Pedro Amatuzzi/Inova Unicamp)

Talvez uma das perguntas mais incômodas para o setor empresarial brasileiro seja justamente esta: Se as próprias empresas brasileiras não confiam na tecnologia desenvolvida no Brasil, como esperar que o resto do mundo confie?

Talvez o elo perdido da inovação brasileira não esteja apenas nos laboratórios ou nas políticas públicas. Talvez ele também esteja na dificuldade de acreditar que a tecnologia desenvolvida no Brasil pode competir, liderar e conquistar mercados globais.

O verdadeiro desafio brasileiro

Ao final da conversa com o professor Hugo Figueroa, emerge uma reflexão que ultrapassa o debate sobre inovação, universidades ou transição energética. Ela diz respeito ao próprio projeto de desenvolvimento do país. O Brasil já demonstrou que é capaz de construir universidades de excelência, formar pesquisadores altamente qualificados e produzir conhecimento científico relevante.

Também possui recursos naturais estratégicos e condições privilegiadas para participar da nova economia de baixo carbono. O desafio agora é outro: transformar essas vantagens em capacidades tecnológicas, industriais e empresariais capazes de gerar riqueza, empregos qualificados e competitividade internacional.

A transição energética talvez represente a maior oportunidade das últimas décadas para fechar esse ciclo. Mas isso exigirá mais do que investimentos e políticas públicas. Exigirá coordenação, planejamento de longo prazo, construção de ecossistemas de inovação capazes de conectar universidades, empresas, investidores e mercados e,  sobretudo, confiança na capacidade brasileira de inovar.

O século XX foi o período em que o Brasil aprendeu a produzir conhecimento. O século XXI poderá ser lembrado como o momento em que o país decidiu — ou não — transformar esse conhecimento em desenvolvimento. A questão permanece em aberto: seremos protagonistas da economia verde do século XXI ou continuaremos exportando recursos enquanto importamos tecnologia?