Entrevista com Gilberto M. Jannuzzi
Por Lira Luz Benites Lazaro – pesquisadora CPTEn
A transição energética costuma ser apresentada como um processo de substituição tecnológica de combustíveis fósseis para fontes renováveis. Para o professor Gilberto M. Jannuzzi, essa interpretação é simplista. “É mais complexo do que falar de troca de um energético”, afirma. Sistemas energéticos não são apenas conjuntos de tecnologias, mas estruturas históricas formadas por infraestruturas, regulações, mercados e padrões de consumo que se consolidam ao longo do tempo.
A história dos sistemas energéticos confirma essa perspectiva. Mudanças nas fontes de energia sempre estiveram associadas a transformações econômicas, geopolíticas e institucionais mais amplas que redefiniram a organização das sociedades.
A passagem da biomassa tradicional, principalmente lenha, para o carvão mineral, consolidada entre o final do século XVIII e o século XIX, esteve diretamente ligada à Primeira Revolução Industrial. O carvão não apenas substituiu parcialmente a biomassa como fonte de energia: ele sustentou a mecanização da produção, alimentou as máquinas a vapor, impulsionou a expansão das ferrovias e possibilitou a consolidação das economias industriais modernas.

Ao longo do século XX, o petróleo e, posteriormente, o gás natural passaram a ocupar posição central na matriz energética global. O petróleo tornou-se a base do sistema produtivo fordista, sustentando a mobilidade de massa, a expansão da indústria petroquímica e uma nova geopolítica internacional centrada no controle de recursos energéticos. Sua difusão estruturou cadeias industriais globais, consolidou grandes corporações energéticas e redefiniu relações de poder entre Estados.
No período pós-Segunda Guerra Mundial, o gás natural expandiu-se rapidamente em diversas economias industrializadas, enquanto a energia nuclear passou a integrar a matriz elétrica de vários países a partir das décadas de 1950 e 1960. Essas novas fontes não substituíram completamente as anteriores; ao contrário, ampliaram o volume total de energia consumida no mundo.
Essa trajetória revela algumas características recorrentes das transições energéticas históricas:
- Foram lentas: levaram décadas ou mesmo mais de um século para alterar de forma significativa a matriz energética global.
- Foram cumulativas: novas fontes ampliaram o consumo total de energia sem eliminar completamente as anteriores.
- Não tiveram como objetivo a descarbonização: foram orientadas principalmente por processos de industrialização, expansão econômica e segurança energética.
Para Jannuzzi, compreender a transição energética contemporânea exige considerar essas camadas históricas que estruturam os sistemas energéticos. Como ele observa, “a energia fóssil cristalizou regulação, infraestrutura e financiamento”.

Essa cristalização cria dependências de trajetória que condicionam o presente. Redes elétricas, cadeias logísticas, modelos de negócio e padrões de consumo não desaparecem com a introdução de novas tecnologias; ao contrário, tendem a moldar o ritmo e os limites da mudança.
Compreender a transição energética, portanto, implica reconhecer que ela ocorre sobre sistemas historicamente estruturados e profundamente interligados às instituições e infraestruturas que sustentam a economia contemporânea.
A singularidade da trajetória brasileira
Se a trajetória global foi marcada pela sequência carvão–petróleo–gás, o Brasil desenvolveu uma configuração distinta. Desde meados do século XX, o país consolidou uma matriz elétrica fortemente baseada em hidroeletricidade, impulsionada por planejamento estatal e grandes projetos de infraestrutura.
A criação da Eletrobras e a construção de grandes usinas hidrelétricas estruturaram um modelo centralizado de geração e planejamento energético. Como resultado, a matriz elétrica brasileira tornou-se majoritariamente renovável muito antes da emergência da agenda climática internacional.
Nos anos 1970, a crise global do petróleo levou à criação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), que transformou o Brasil em pioneiro no desenvolvimento de biocombustíveis. A motivação principal era reduzir a dependência externa e fortalecer a segurança energética nacional.
Mais recentemente, a descoberta das reservas do pré-sal reforçou a centralidade do petróleo na economia brasileira, ampliando exportações e consolidando a Petrobras como ator estratégico no setor energético global.
A trajetória brasileira revela, assim, uma condição particular: uma matriz elétrica relativamente limpa coexistindo com uma economia ainda fortemente vinculada à produção de combustíveis fósseis.
Também aqui se observam processos de cristalização institucional — grandes infraestruturas energéticas, marcos regulatórios específicos e estruturas de financiamento que se consolidaram ao longo de décadas e continuam a moldar as possibilidades de transformação do sistema energético nacional.

A ruptura histórica contemporânea
O que distingue a transição energética atual das anteriores é sua natureza normativa e temporal. Diferentemente do passado, a transformação contemporânea é impulsionada pela necessidade de limitar o aquecimento global, conforme demonstram os relatórios do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC).
Nunca antes uma transição energética foi orientada explicitamente por metas globais de descarbonização e conduzida sob pressão científica internacional.
Ainda assim, muitas análises permanecem centradas na dimensão tecnológica. Projeções de expansão das energias renováveis, curvas de custo e cenários de eletrificação dominam o debate público.
Para Jannuzzi, essa abordagem ignora a complexidade estrutural do sistema energético. “A transição energética não acontece apenas nas tecnologias”, observa. A dificuldade da transição contemporânea, portanto, não é apenas tecnológica. É histórica.
Transformar sistemas energéticos implica enfrentar estruturas construídas ao longo de mais de um século — regulações consolidadas, fluxos financeiros estabelecidos, redes técnicas complexas e práticas sociais profundamente enraizadas.
As dimensões estruturantes da transição energética
Ao discutir a criação do Programa de Transição Energética da FAPESP, o Professor Jannuzzi propõe um enquadramento analítico que busca capturar essa complexidade. Em vez de tratar a transição energética como um tema isolado, ele sugere compreendê-la como um conjunto de dimensões interdependentes que estruturam o sistema energético. “São eixos, não são temas”, explica.

A proposta organiza a transição em seis dimensões principais, que orientam tanto a análise dos sistemas energéticos quanto a construção de agendas de pesquisa.
- Tecnologia
A dimensão tecnológica inclui o desenvolvimento de energias renováveis, sistemas de armazenamento, hidrogênio, captura de carbono e soluções de eficiência energética. Embora essas tecnologias desempenhem papel central no debate contemporâneo, Jannuzzi enfatiza que elas representam apenas parte da transformação necessária.
A experiência acumulada em políticas de eficiência energética demonstra que barreiras institucionais, regulatórias e comportamentais frequentemente limitam a adoção de soluções tecnológicas disponíveis.
- Uso do solo
A transição energética possui forte dimensão territorial. A expansão de bioenergia, parques eólicos e usinas solares depende diretamente da disponibilidade e da governança do território.
Nesse contexto, a energia passa a se articular com debates sobre agricultura, conservação ambiental e planejamento territorial.
- Infraestrutura física
Sistemas energéticos dependem de redes materiais complexas — linhas de transmissão, portos, gasodutos, instalações de armazenamento e cadeias logísticas. “Se eu quero hidrogênio, como que eu vou distribuir isso?”, questiona Jannuzzi.
A introdução de novas tecnologias exige adaptação ou construção de novas infraestruturas capazes de sustentar essas transformações.
- Infraestrutura regulatória
Além da infraestrutura física, os sistemas energéticos são sustentados por marcos institucionais formados por leis, normas técnicas e arranjos regulatórios. Sem essas condições institucionais, novas tecnologias dificilmente conseguem se consolidar.
Jannuzzi cita o exemplo do biometano, cujo desenvolvimento depende de padrões técnicos e regras de mercado adequadas.
- Modelos de negócio e financiamento
A transição energética também implica mudanças nos arranjos econômicos que sustentam o setor energético. Sistemas baseados em geração centralizada e combustíveis fósseis consolidaram cadeias financeiras e empresariais ao longo de décadas.
Novas tecnologias, muitas vezes distribuídas e digitalizadas, exigem modelos de negócio e estruturas de financiamento diferentes.
- Comportamento do consumidor
Outro ponto que Jannuzzi destaca é o papel do comportamento social. A transição energética envolve mudanças nos padrões de consumo de energia, mobilidade e uso de edificações. Essa transformação não se limita a consumidores individuais. Empresas, cidades e instituições também precisam adaptar suas práticas energéticas.
Ao organizar a transição energética nesses eixos, Jannuzzi propõe um enquadramento analítico que ultrapassa fronteiras disciplinares. A abordagem busca evitar a fragmentação do debate energético e estimular a colaboração entre áreas como engenharia, economia, políticas públicas e ciências sociais.
Conforme ressalta, cada dimensão abre diferentes possibilidades de investigação científica, mas todas precisam ser consideradas simultaneamente para compreender a complexidade da transformação energética.

Planejar a transição energética é superar a lógica setorial
Em um momento em que a urgência climática pressiona por mudanças rápidas nos sistemas energéticos, compreender suas raízes históricas torna-se fundamental. A história revela não apenas como os sistemas energéticos se formaram, mas também por que sua transformação é tão complexa.
Para Jannuzzi, essa complexidade tem implicações diretas para o planejamento energético. Historicamente, o planejamento foi estruturado de forma setorial, concentrado principalmente na expansão da oferta e na introdução de novas tecnologias. No contexto da transição energética, essa abordagem mostra-se insuficiente.
Segundo ele, pensar a transição exige considerar o sistema energético em conexão com outras dimensões estruturais da economia e do território. O caso do uso do solo é um exemplo claro dessa interdependência.
“O uso do solo é importante sob vários aspectos. Um deles é a própria produção de energia renovável, que depende do território. Seja bioenergia, solar ou eólica, precisa-se de solo ou de mar”, observa Jannuzzi.
Essa observação evidencia que o planejamento energético não pode ser dissociado de políticas territoriais, ambientais e agrícolas. A expansão das energias renováveis envolve decisões sobre o uso do espaço e exige coordenação entre diferentes setores e escalas de governança.
Nesse contexto, a transição energética requer uma abordagem de planejamento mais integrada, capaz de considerar as múltiplas dimensões que estruturam os sistemas energéticos — das infraestruturas físicas às formas de uso do território.
Pensar a transição energética, portanto, não é apenas projetar o futuro da energia. É compreender as estruturas históricas que moldam o presente e que, ao mesmo tempo, condicionam os caminhos possíveis para a mudança.



