Artigo de Lira Luz Benites Lazaro
A transição para sistemas energéticos de baixo carbono e a redução progressiva da dependência dos combustíveis fósseis são fundamentais para o enfrentamento das mudanças climáticas. Nesse processo, a rápida expansão das energias renováveis ocupa posição central.
No imaginário construído em torno da transição energética, o Brasil aparece frequentemente como um caso de sucesso, e há boas razões para isso. O país parte de uma posição diferenciada, com elevada participação de fontes renováveis em sua matriz elétrica, ampla disponibilidade de recursos energéticos e condições favoráveis à expansão de tecnologias como a solar e a eólica.
Mas essa narrativa, embora importante, conta apenas uma parte da história. Uma transição energética não pode ser compreendida apenas pela composição da matriz ou pelo crescimento da capacidade instalada de geração renovável. A expansão das renováveis ocorre por meio de políticas, investimentos, inovações, decisões empresariais e arranjos institucionais e, ao mesmo tempo, transforma mercados, territórios e relações entre diferentes atores.

Transições energéticas são também processos políticos, econômicos, territoriais e sociais.
Isso significa que, além de perguntar quanto e quão rapidamente as renováveis podem crescer, é preciso compreender como essa expansão acontece, quem participa de sua construção e como seus benefícios, oportunidades, custos e impactos são distribuídos.
Quem define os rumos da transição? Quais atores participam das decisões e quais possuem maior capacidade de influenciá-las? Como políticas públicas, instituições e interesses econômicos interagem? Como a inovação e novos modelos de negócio transformam os mercados de energia? Como empresas, investidores e consumidores respondem a essas mudanças? Como novos empreendimentos interagem com territórios, recursos naturais e comunidades? E como diferentes atores percebem, interpretam, apoiam, negociam ou contestam essas transformações?
Essas questões estão no centro do projeto Jovem Pesquisador FAPESP “Transição Energética: Governança, Dinâmicas de Mercado e Aceitação Pública das Energias Renováveis no Brasil” (Processo:24/13612-9), sediado na Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (FCA/UNICAMP) e desenvolvido em articulação com o Centro Paulista de Estudos da Transição Energética (CPTEn). Com duração de cinco anos, o projeto investigará a transição energética brasileira a partir da integração de três dimensões fundamentais: governança, dinâmicas de mercado e aceitação pública.
O desafio, portanto, não é questionar a necessidade da expansão das energias renováveis, mas compreender como acelerá-la e sob quais condições essa expansão pode ser ambientalmente sustentável, economicamente viável, institucionalmente robusta e socialmente legítima.
Aceitação social: muito além de ser “a favor” ou “contra” as renováveis
A aceitação social não deve ser entendida simplesmente como apoio ou resistência a determinada tecnologia. Aceitar, apoiar, negociar ou contestar uma transformação energética envolve diferentes formas de perceber, experimentar e interpretar o que essa transformação representa.
A transição energética não possui o mesmo significado para todos os atores. Para governos, pode estar associada ao cumprimento de metas climáticas, à segurança energética e ao desenvolvimento econômico, mas também à necessidade de responder a demandas sociais, implementar políticas com apoio público e produzir resultados dentro dos horizontes do ciclo político e eleitoral.
Para empresas, pode representar novos mercados, oportunidades de investimento, inovação, competitividade, rentabilidade e posicionamento estratégico, ao mesmo tempo em que envolve riscos regulatórios, tecnológicos e reputacionais. Para investidores e instituições financeiras, entram em jogo retorno, risco, previsibilidade e perspectivas de longo prazo.
Para consumidores, podem pesar preços, confiabilidade, acesso, autonomia e a possibilidade de produzir a própria energia. Já para comunidades que recebem novos empreendimentos, a transição pode ser percebida a partir de seus efeitos sobre o território, os modos de vida, a paisagem, os recursos naturais, as oportunidades econômicas e a distribuição dos benefícios.

Os atores, portanto, não apenas percebem a transição de maneiras diferentes: eles também esperam coisas diferentes dela. Essas percepções são construídas a partir das posições que ocupam, de seus interesses, valores, conhecimentos, experiências anteriores, expectativas e relações com instituições e territórios.
Também existem diferentes horizontes temporais. Políticas governamentais podem ser influenciadas por ciclos eleitorais e pela necessidade de apresentar resultados no curto prazo; empresas tomam decisões considerando estratégias de investimento, condições de mercado e expectativas de retorno; investidores avaliam riscos e oportunidades em diferentes horizontes; enquanto comunidades podem considerar transformações territoriais e sociais cujos efeitos permanecem por décadas ou atravessam gerações. A própria descarbonização, por sua vez, exige planejamento e compromissos de médio e longo prazo. Conciliar essas diferentes temporalidades constitui um dos desafios da transição energética.
Essas posições, interesses e temporalidades também influenciam as narrativas construídas em torno da transição. Narrativas não são neutras: elas selecionam problemas, enfatizam determinados benefícios e riscos e ajudam a construir interpretações sobre quais transformações são necessárias, desejáveis, urgentes ou viáveis. Uma mesma tecnologia ou empreendimento pode ser apresentado como oportunidade de desenvolvimento, inovação, competitividade, segurança energética e redução de emissões e, ao mesmo tempo, ser percebido por outros atores a partir de questões relacionadas ao território, à distribuição dos benefícios, aos impactos socioambientais ou à participação nos processos decisórios.
As percepções possuem ainda uma dimensão subjetiva e afetiva. Confiança, expectativas, insegurança, percepção de risco, sentimento de pertencimento ao território, experiências anteriores com empresas e instituições e expectativas de novas oportunidades podem influenciar a maneira como diferentes atores se posicionam diante de políticas, tecnologias e empreendimentos energéticos. A aceitação, portanto, não resulta apenas de uma avaliação objetiva ou econômica de custos e benefícios.
Isso ajuda a compreender por que uma sociedade pode apoiar amplamente a expansão das energias renováveis e, ao mesmo tempo, comunidades específicas podem questionar a localização de empreendimentos, seus impactos territoriais, a distribuição de custos e benefícios, os processos de consulta ou as formas pelas quais as decisões são tomadas. Apoiar a descarbonização e as energias renováveis em termos gerais não significa necessariamente aceitar qualquer projeto, em qualquer lugar e sob quaisquer condições.

Por isso, explicações que atribuem a contestação local simplesmente ao chamado NIMBY (Not In My Backyard) são insuficientes. A oposição, negociação ou contestação em torno de usos localmente indesejados do território — discussão também associada ao conceito de LULU (Locally Unwanted Land Uses) — pode expressar questões substantivas relacionadas à confiança nas instituições, à participação nos processos decisórios, à percepção de justiça, aos impactos socioambientais, às características dos empreendimentos e à distribuição de seus benefícios.
A aceitação social precisa, portanto, ser compreendida como um fenômeno multidimensional, relacional e dinâmico, que pode variar entre tecnologias, atores, territórios e diferentes etapas de desenvolvimento dos projetos. Suas três dimensões inter-relacionadas incluem: aceitação sociopolítica, aceitação comunitária e aceitação de mercado.
A aceitação sociopolítica diz respeito ao apoio mais amplo às tecnologias, políticas e trajetórias da transição energética, envolvendo governos, instituições, organizações da sociedade civil e opinião pública. Nesse nível, interessa compreender também como diferentes narrativas sobre descarbonização, desenvolvimento, segurança energética, justiça e competitividade contribuem para legitimar, priorizar ou questionar determinadas trajetórias da transição.
A aceitação comunitária aproxima a análise dos territórios onde os projetos são efetivamente implantados. Nesse nível, tornam-se particularmente relevantes questões relacionadas à participação, confiança, justiça distributiva e processual, percepção de impactos e benefícios e relações estabelecidas entre empreendimentos e comunidades. Importa compreender não apenas quais impactos e benefícios existem, mas como são percebidos, experimentados e interpretados pelos diferentes grupos sociais.
Já a aceitação de mercado permite compreender como empresas, investidores, consumidores e instituições financeiras respondem à transição e incorporam ou não as energias renováveis às suas decisões. Nesse âmbito, entram em jogo condições regulatórias, custos, riscos, acesso a financiamento, expectativas de retorno, competitividade, modelos de negócio e oportunidades criadas pela transformação dos sistemas energéticos.

A aceitação de mercado dialoga também com agendas de responsabilidade social empresarial, ESG, investimentos sustentáveis e finanças verdes, buscando compreender como compromissos de descarbonização são traduzidos em estratégias corporativas, decisões de investimento, modelos de negócio e práticas socioambientais.
Interessa, portanto, não apenas identificar apoio declarado à transição energética, mas compreender como diferentes atores constroem sentidos sobre essa transformação, como percepções e narrativas influenciam suas posições e decisões e como o apoio se transforma ou não em práticas concretas. Isso inclui observar possíveis distâncias entre discursos, compromissos, investimentos e ações efetivamente implementadas.
Essa perspectiva desloca uma pergunta frequentemente formulada como “a sociedade aceita as energias renováveis?” – para uma questão analiticamente mais precisa: Quem aceita o quê, onde, por quais razões, a partir de quais percepções e sob quais condições?
Inovação, novos modelos de negócio e transformação dos mercados
A inovação ocupa posição central na transição energética. Novas tecnologias de geração, armazenamento, digitalização e gestão da energia ampliam as possibilidades de descarbonização e estão transformando a maneira como a energia é produzida, distribuída, comercializada e consumida.
Mas a inovação não se limita ao desenvolvimento de novas tecnologias. Uma solução pode ser tecnicamente viável e, ainda assim, não alcançar ampla adoção. Sua difusão depende de condições regulatórias, infraestrutura, acesso a financiamento, custos, percepção de riscos, comportamento dos consumidores e, especialmente, da capacidade de desenvolver modelos de negócio capazes de transformar possibilidades tecnológicas em soluções economicamente viáveis e socialmente relevantes.
A expansão das renováveis está, nesse sentido, associada ao surgimento e à transformação de modelos de negócio. Geração distribuída, armazenamento, serviços de gestão da energia, agregação de recursos energéticos distribuídos, comercialização e novas formas de financiamento são exemplos de mudanças que podem alterar não apenas as tecnologias utilizadas, mas também quem produz, quem consome, quem investe, quem presta serviços e quem captura valor no sistema energético.

Essas transformações também modificam papéis tradicionalmente estabelecidos. Consumidores podem tornar-se produtores de energia; empresas podem passar de fornecedoras de eletricidade a provedoras de serviços energéticos; novos agentes podem entrar nos mercados; e tecnologias digitais podem criar novas formas de coordenação entre geração, consumo e armazenamento.
Por isso, novos modelos de negócio não surgem de forma independente das políticas e instituições. Regulação pode viabilizar determinados mercados e modelos de negócio, mas também criar barreiras à entrada, favorecer determinados atores ou dificultar a difusão de novas soluções. Da mesma forma, disponibilidade de financiamento, estrutura tarifária, incentivos, infraestrutura e regras de acesso aos mercados influenciam quais inovações conseguem se expandir e quais permanecem restritas a determinados segmentos.
A inovação, portanto, também pode redistribuir oportunidades, riscos e posições dentro do sistema energético. Novos mercados podem beneficiar empresas inovadoras e investidores, ampliar possibilidades para consumidores e criar oportunidades econômicas, mas o acesso a essas oportunidades não é necessariamente homogêneo. Capacidade de investimento, renda, informação, infraestrutura e condições territoriais podem determinar quem consegue adotar uma inovação e se beneficiar dela.
Assim, compreender a inovação na transição energética exige olhar simultaneamente para tecnologia, modelos de negócio, regulação, financiamento, comportamento dos atores e estrutura dos mercados.
Mais do que perguntar quais tecnologias estão disponíveis, interessa compreender quais condições permitem que inovações se transformem em investimentos, novos mercados e soluções efetivamente adotadas — e como os benefícios dessa transformação são distribuídos.

Renováveis, territórios e o nexo entre recursos
A expansão das energias renováveis também precisa ser compreendida em suas interações com outros recursos, atividades econômicas e usos do território.
Uma perspectiva sistêmica, incluindo abordagens como o nexo água–energia–alimentos (WEF Nexus), permite analisar como decisões no setor energético podem produzir sinergias, trade-offs e efeitos não intencionais em outros sistemas.
Essa perspectiva é particularmente relevante porque infraestruturas energéticas não existem isoladamente. Sua implantação envolve território, materiais, recursos naturais, cadeias produtivas, infraestrutura e diferentes usos do espaço. Dependendo da tecnologia, da escala e da forma de implantação dos projetos, podem surgir novas complementaridades, mas também pressões sobre recursos e usos concorrentes do território.
Incorporar essas interdependências não significa colocar em dúvida a necessidade da descarbonização. Ao contrário, significa reconhecer que a forma como as renováveis são implantadas também importa. Antecipar conflitos, identificar sinergias e compreender essas relações pode contribuir para melhorar o desenho de políticas e projetos e ampliar as condições para uma expansão sustentável das energias renováveis.
Transição energética: entre sinergias, dilemas e escolhas
A transformação dos sistemas energéticos envolve múltiplos objetivos. Além da redução das emissões, é necessário considerar segurança energética, acessibilidade, equidade, sustentabilidade ambiental e as condições específicas dos diferentes contextos em que a transição ocorre.
Debates sobre o trilema energético — tradicionalmente estruturado em torno de segurança, equidade e sustentabilidade — e suas ampliações para perspectivas de quadrilema, incorporando outras dimensões contextuais, ajudam a evidenciar essa complexidade. Esses objetivos podem produzir importantes sinergias, mas nem sempre avançam na mesma direção.

A expansão da geração distribuída, por exemplo, pode diversificar o sistema, ampliar a participação dos consumidores e criar novas oportunidades econômicas. Entretanto, o acesso a essas oportunidades pode depender de renda, infraestrutura, financiamento, regulação e capacidade de investimento. Da mesma forma, grandes projetos renováveis podem contribuir significativamente para a descarbonização e para a expansão da oferta de energia, ao mesmo tempo em que produzem novas demandas sobre territórios, infraestrutura e recursos.
A questão, portanto, não é simplesmente encontrar um equilíbrio abstrato entre diferentes objetivos. Trade-offs implicam escolhas, e escolhas implicam governança.
Decidir quais objetivos serão priorizados, como os riscos serão administrados e como custos e benefícios serão distribuídos envolve processos políticos nos quais governos, empresas, investidores, consumidores, comunidades e organizações da sociedade civil possuem interesses, recursos e capacidades de influência distintos.
Por isso, compreender a governança da transição significa investigar não apenas quais políticas e instituições existem, mas também como decisões são produzidas, quais atores conseguem influenciá-las e como essas relações afetam a direção, a velocidade e os resultados da transição energética.
Uma transição nacional, diferentes realidades territoriais
Falar em “transição energética brasileira” pode sugerir um processo relativamente homogêneo. Na prática, porém, essa transformação ocorre em um país marcado por profundas diferenças regionais em termos de infraestrutura, renda, acesso a serviços, disponibilidade de recursos, capacidade institucional e vulnerabilidades socioambientais.
Isso produz um aparente paradoxo: regiões com elevado potencial ou grande capacidade instalada de geração renovável não necessariamente apresentam os melhores resultados nas demais dimensões da transição energética.
A presença de empreendimentos eólicos ou solares em determinado território, por exemplo, não significa automaticamente energia mais acessível, redução das desigualdades ou apropriação local dos benefícios econômicos gerados. Da mesma forma, os locais que recebem os investimentos e a infraestrutura podem não coincidir com aqueles que concentram os benefícios econômicos associados à energia produzida.
A geografia da produção de energia, portanto, não coincide necessariamente com a geografia de seus benefícios.
Essa constatação ajuda a compreender por que o contexto precisa fazer parte da análise da transição. Uma mesma tecnologia pode produzir resultados distintos dependendo das características do território, das instituições existentes, das condições socioeconômicas, das formas de participação e da maneira como oportunidades, benefícios, custos e impactos são distribuídos.
Isso também significa que não existe uma única experiência brasileira da transição energética. Compreender suas diferentes configurações territoriais é fundamental para identificar tanto oportunidades quanto desigualdades e evitar que a expansão de sistemas de baixo carbono reproduza assimetrias existentes ou produza novas formas de exclusão.
Da expansão das renováveis à qualidade da transição
Ao longo dos próximos cinco anos, o projeto pretende produzir bases de dados integradas, indicadores e evidências capazes de acompanhar diferentes dimensões da transição energética brasileira, além de contribuir para a formação de pesquisadores e ampliar o diálogo entre universidade, formuladores de políticas públicas, setor produtivo e sociedade.
Mais do que observar isoladamente governança, mercados ou aceitação pública, o projeto busca compreender como essas dimensões interagem.
Políticas públicas e regulações podem criar — ou limitar — condições para novos investimentos. Estratégias empresariais e decisões financeiras podem influenciar a velocidade e a direção da expansão das renováveis. As formas de implantação dos projetos podem, por sua vez, afetar sua relação com comunidades e territórios, enquanto confiança, participação e percepção de justiça podem influenciar sua legitimidade social.
É justamente nessas interações que se encontram algumas das questões mais importantes da transição energética. O objetivo é, portanto, contribuir para uma compreensão que vá além da pergunta sobre quanto de energia renovável o Brasil consegue instalar.

Importa compreender também como essa expansão acontece, onde ocorre, quais políticas e instituições a orientam, como os mercados respondem, quem participa e influencia as decisões, como benefícios e impactos são distribuídos e quais condições favorecem sua legitimidade social.
A questão não é escolher entre acelerar as energias renováveis e construir legitimidade social. O desafio é compreender quais condições permitem fazer as duas coisas simultaneamente.
Se a redução da dependência dos combustíveis fósseis exige acelerar a transformação dos sistemas energéticos, compreender as dimensões políticas, econômicas, territoriais e sociais dessa transformação pode contribuir para torná-la mais robusta, inclusiva e duradoura.
É nesse espaço entre tecnologia, dados, políticas públicas, mercados, territórios e sociedade que se situa esta nova agenda de pesquisa. Assim, uma das questões que melhor sintetiza o desafio que temos pela frente é:
Que transição energética estamos construindo no Brasil — e para quem?



